A Neuroeducação e a Aprendizagem do Viver (por Cândida Soares)

9 de Dezembro, 2009

A Neuroeducação  e a Aprendizagem do Viver (por Cândida Soares)

 

Muito tem se falado em neurociências ultimamente. Entre tantas pesquisas, estudos,  polêmicas e dúvidas surge uma questão que fica bem nítida: nunca foi tão urgente à classe médica procurar entender a aprendizagem e o processo da educação, junto ao profissionais dessa área específica: professores, pedagogos, orientadores educacionais, psicopedagogos, neuropsicólogos, psicólogos etc. E por outro lado, nunca foi tão premente a esses últimos a aproximação  com os neurologistas, psiquiatras, psicomotricistas, fonoaudiólogos, etc.  É como se essas  áreas multidisciplinares tivessem que, finalmente, se aliar para  juntas darem conta do que é a nossa complexa  aprendizagem do viver.

Nunca foi tão necessário definir o termo aprendizagem, mas dessa vez procurando situá-lo do ponto de vista das neurociências. Sabemos que a aprendizagem antes de tudo é mudança de comportamento e, vista com uma “lente de aumento” do neurocientista, é  o movimento de neurônios que se interligam, criando ligações (sinapses), trajetórias e redes de circuitos, que se reforçam e se sustentam pela repetição e pela necessidade do “uso” e, sobretudo, da busca incessante pela exploração  de si mesmo, do meio ambiente e do outro.  

Falar em aprendizagem, portanto, não é só falar em  infância e adolescência e no que acontece entre as paredes da sala de aula e no que conhecemos como educação formal. É, muito antes disso, falar de  “movimento” de um ser que, a partir da saída do ventre da mãe, já tece os futuros caminhos por onde se processará  a  maturação e o  desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso,  trazendo, portanto, o afloramento da vivência humana em cada nova experiência  desfrutada , cada nova descoberta que o coloca frente aos desafios da interação com o meio e que  estimulam o “aprender”. Então colocamos aqui o aprender praticamente como um sinônimo de viver a vida.

O mais intrigante sobre a jornada desse ser que aprende o viver do dia a dia é que, para a perplexidade dos estudiosos dessa vasta área de conhecimento, há coisas que não “dão certo”, posto que  cada ser humano é único.  Longe da previsibilidade mecânica que um futuro sofisticado robô-humano de última geração poderia um dia executar, cada um de nós é único em seu conjunto de idiossincrasias e ao mesmo tempo peculiar no quadro de suas capacidades e de atributos que suas múltiplas inteligências podem lhes trazer. 

O que dizer, então, desse indivíduo que tinha tudo para dar certo? Gestação normal, parto bem sucedido, família harmoniosa e estruturada, alimentação adequada, meio ambiente propício e  pleno de estímulos, inteligência normal, não comprometimento na área sensitiva ou motora, sem lesões ou enfermidades no cérebro, método educacional apropriado, relação professor/aluno, aluno/colegas, aluno/escola mais do que satisfatórias, sem “problemas”.

Mesmo com tudo a seu favor, a aprendizagem pode não acontecer e encontrar obstáculos para ser processada, trazendo inúmeras dificuldades e desfuncionalidades as quais não podemos nem ao menos  rotular - como muitas vezes tendemos a fazer, infelizmente!  Muitas sequer têm “nome” específico e por isso não são levadas a sério e acabam sendo subestimadas e entregues nas mãos do “pobre”  explicador que, ao chegar ao  final do ensino fundamental, percebe não  ter conseguido  resolvê-las.

Esse futuro adulto cresce com uma bagagem de incapacidades, que pode levá-lo desde a exclusão do sistema escolar até a própria anulação do que seria uma vida saudável, inteligente, autônoma, bem sucedida e de múltiplas realizações.

Nem todas as dificuldades de aprendizagem estão catalogadas e descritas no DSM IV ou no CID 10, pois não são consideradas patologias como os transtornos ou distúrbios.  A Neuroeducação é a luz no final do túnel para a solução dessas incapacidades e sua área de atuação no âmbito da mente faz com que os resultados sejam mais rápidos e eficazes, recuperando nos indivíduos sua inserção na sociedade como seres humanos dignos, autoconfiantes, produtivos e felizes, dando-lhes a chance de … Viver a Vida… usufruindo de suas múltiplas capacidades e do estimulante processo do …   eterno  Aprender.

 

 

PREPARE PARA SEU VOO RUMO À GENIALIDADE PESSOAL! (por Cândida Soares)

21 de Outubro, 2009

(…)“A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…”

Todo neuroeducador diria que o normal no ser humano é ser genial. Nossos sistemas neurais seriam como águias sendo criadas em gaiolas, predestinadas a serem galinhas, se não fosse possível a reestruturação e recuperação de sua potencialidade funcional. Como sugere a parábola, citada por Boff, quem vai à escola seriam os supostos pintinhos. Crescendo num meio ambiente que não os estimula a descobrir a sua verdadeira natureza, eles se condicionariam a existir aprisionados pelo embotamento de suas reais capacidades.

A consciência é naturalmente inteligente e genial, pois é o princípio causal de todo ser humano.  O propósito da existência do ser humano é ser instrumento de manifestação da consciência. Para que a nossa genialidade natural se manifeste é necessária a participação do corpo físico, utilizando para isso o sistema mental. Quem faz a interseção do corpo físico com a consciência é a estrutura cérebro/sistema nervoso, quem faz a comunicação entre a consciência e o meio ambiente é o sistema mental.

É através do sistema mental que se processará nosso crescimento, desenvolvimento e existência no mundo, mas para isso é necessário que a consciência vivifique o sistema mental criando, assim, a mente. Mente, cérebro e consciência agem em conjunto formando uma tríade. Nós não somos a mente, somos uma consciência que se manifesta através dela. A Neuroeducação a define como uma ilusão perceptiva de entidade vivente. 

É  a mente que, muitas vezes, ilusoriamente, pode “pensar” não ser possível a concretização da genialidade”.  Aos seus olhos somente os grandes homens como Galileo, Leonardo da Vinci, Mozart estariam na condição de  águias, acreditando ser essa condição algo inacessível: um dom, uma bênção, uma predestinação, um milagre, um mistério. Por meio da consciência sabemos ser uma águia, que sairá do galinheiro e um dia alçará vôo. Se Einstein foi o gênio que conhecemos, mesmo tendo suas dificuldades em Línguas, imaginem onde ele teria chegado se esses entraves não existissem.

Felizmente somos dotados de certas partes da mente que nos dão a possibilidade de reconhecer a natureza genial da consciência  após passarem  pela   reorganização das matrizes de inteligência.  Para cada tipo de inteligência (matemática, lingüística, espacial, musical, interpessoal, etc)  existe uma matriz específica. As matrizes de inteligência são organizadas em estruturas sistêmicas de informações, que se constroem segundo uma determinada lógica. Matrizes de inteligência que apresentam limitadores matriciais terão seus resultados funcionais reduzidos, impedindo a manifestação da genialidade contida no potencial inteligente da consciência.

São os limitadores matriciais o que podem impedir que um dia alcemos o vôo da águia. Este é o foco de trabalho da Neuroeducação: reestruturar os sistemas operacionais de crianças em fase de formação escolar, para que suas mentes olhem o ato de aprender como algo prazeroso, interessante, estimulante, como algo que lhes ofereça a oportunidade de desenvolvimento de cada uma de suas matrizes de inteligência e que lhes oportunize chegar à manifestação de excelência em cada uma delas.

A genialidade é a concretização do vôo da águia, é a expressão máxima de operacionalização de nossas matrizes de inteligência, fazendo-nos ultrapassar as barreiras de nossos limitadores matriciais, deixando aflorar em nossa mente a vasta dimensão do potencial da consciência, que se manifesta em plenitude de existência, tirando-nos da condição de vítimas para sermos causadores daquilo que queremos materializar na vida.

São tantas emoções!

21 de Abril, 2009

São tantas emoções…! A primeira o cérebro nunca esquece - a primeira experiência de cada novo evento de nossa vida fica arquivada no cérebro como padrão. E já que “são tantas emoções…”, que tal uma teoria nada ortodoxa (mas quem sabe definitiva) para explicar a enorme quantidade de arquivos de memória no cérebro humano?

(por Cândida Soares)

 

 

        A paródia é de um antigo comercial de TV, lançado há alguns anos, anunciando uma marca famosa de sutiã: “O primeiro a gente nunca esquece”. A idéia ilustra com perfeição o que acontece com o nosso cérebro quando vivemos pela primeira vez uma determinada experiência, seja ela de aprendizagem formal ou informal, participando de eventos direta ou indiretamente, reais ou fictícios, vividos “na pele” ou virtualmente (por tabela) - como quando assistimos a filmes, por exemplo. Enfim, tudo o que experimentamos na vida pela primeira vez fica gravado no cérebro (e também no sistema nervoso) como uma referência para a próxima vez que um evento semelhante ocorrer. Obviamente toda a emoção que acompanha o evento entra neste pacote.  A isso denominamos experiência de referência – aquela primeira experiência cujo arranjo sináptico fica como padrão para ser utilizado novamente, no futuro, em situações semelhantes.

        Podemos dizer que as experiências de referência funcionam como uma espécie de medida econômica, poupando esforço do cérebro. Se este órgão pudesse falar, ao viver situações parecidas, ele diria: “Ôpa, já vi esse filme antes e já sei me virar com isso”. O cérebro jamais faria como o robozinho da antiga série de TV dos anos 60: “Perdidos no Espaço”. Diante de situações inusitadas o robô exclamava: “Não tem registro… não tem registro…”, balançando os bracinhos freneticamente. Ao invés disso, diante do que é novo, o cérebro, sem discussão ou espanto, já cria um circuito neural específico para aquela nova situação.

         O cérebro tem tanto trabalho a fazer que as funções de economia de esforço são fundamentais para a sua saúde e bom funcionamento. Se não pudéssemos memorizar tudo o que aprendemos, viveríamos na turbulência caótica de uma sucessão de novos circuitos se formando interminavelmente a cada instante, a cada novidade aprendida.

        O famoso exemplo do dedo na tomada ilustra muito bem essa questão. O bebê que levou um choque terá em seu cérebro registrado o que aconteceu quando pela primeira vez colocou o dedo onde não devia. Para esta experiência haverá um registro completo de tudo o que ocorreu, a ser recuperado como um filme tridimensional, no qual além da imagem da cena vivida estarão incluídas todas as sensações trazidas pelos outros quatro sentidos (audição, tato, paladar, olfato), com um script de tudo o que se pensou, sentiu e se concluiu a respeito do ocorrido, incluindo todos os outros personagens que fizeram parte da cena. Imaginem, então, como é tremenda a capacidade de armazenamento do cérebro: para cada tipo de experiência vivida existe um arquivo completo com todas as emoções, sentimentos e pensamentos experimentados.

 Susan Leibig afirma que para dar conta de tamanha complexidade de armazenamento e memorização, o cérebro utiliza mecanismos que podem ser compreendidos pelo modelo holográfico. A fantástica capacidade de armazenagem de informações estaria contida em nossa mente de forma não observável e implícita, como num filme holográfico. É o que afirmam também os autores do recém-lançado livro “O Cérebro que Aprende”, escrito por alunos da turma de pós-graduação em Neuroeducação (com a organização de Susan Leibig). Mas não é só isso. Qualquer sentimento, canção ouvida, palavra pensada ou proferida, vira imagem para o cérebro. Tanto uma paisagem quanto um pensamento são imagens compostas de múltiplas combinações somato-sensoriais formadas pelo trabalho de diversas regiões do cérebro.

        E como diz o rei Roberto Carlos, são muitas as emoções vividas. Com certeza, todos nós temos nosso pacote de experiências de referência. Algumas, especialmente as formadas na infância, têm relevância para influenciarem o resto de nossos dias, sejam elas boas ou ruins. Lembro bem da bronca da professora de Matemática, chamando minha atenção por não aprender os números pares e ímpares. Um susto tão forte, quase como um soco no estômago. Jamais esperei aquele olhar tão reprovador e sisudo. Depois disso, todo professor que se dirigisse a mim, fosse para repreender ou elogiar eu já sentia calafrios e me preparava para receber aquele knock out. Por outro lado, ficou para sempre na memória a cena em que devorei, escondida atrás da porta, um ovo de Páscoa que se encontrava sobre o piano – um presente destinado ao meu priminho. Sem sentimento de culpa, valeu a pena ter surrupiado a iguaria.  Senti pela primeira vez o gosto do chocolate, o cheiro do cacau, os dentes mordendo aquela superfície abaulada e firme, quebrando-se suavemente em pequenos pedaços dentro da boca. Senti na pele aquela sensação que me impeliu a fazer algo proibido e tão prazeroso. Pena que já não se fazem mais ovos de Páscoa como antigamente e, graças a Deus, nem professoras tão carrancudas.

        Se a Neuroeducação irá me restituir o gosto daquele chocolate da infância, eu não sei ainda, pois há na minha lista outras prioridades. O que posso assegurar é que ela tem me ajudado a administrar os bichos-papões enraivecidos e ameaçadores que às vezes cruzam o meu caminho…, sobretudo porque minhas crenças de incapacidade ou de incompetência estão sendo eliminadas com a Neuroeducação. O que acontece é que os bichos-papões acabam se enfraquecendo e desaparecendo, sem deixar nenhum vestígio, o que, principalmente, me dá liberdade para curtir minha auto-estima no seu nível mais alto. Aqueles arquivos que continham a experiência traumática são eliminados e é como se nunca tivessem existido antes. A lembrança do evento permanece, mas as marcas e as conseqüências das sensações desconfortáveis e limitantes desaparecem do meu sistema nervoso e … da minha vida.

         Ah…! Sobre o meu primeiro sutiã? Lembro até da loja onde foi comprado… Qual era o modelo? Esqueçam! Hoje em dia ele já não existe mais!

       E você? Não vai contar a sua primeira experiência, a sua primeira vez…?

“O Nivelamento por baixo” por Cândida Soares

7 de Outubro, 2008

Sua atuação no roteiro da vida está sendo nivelada por baixo? Quantos novos scripts estamos deixando de viver só porque estamos fazendo as  coisas novas de um jeito velho? E nossas crianças na escola estão deixando de atuar em ótima performance porque sempre dizem: “Eu não consigo!”?

 

        Juliana, aluna do 7º ano do ciclo, apresentou à turma a sua parte expositiva de um trabalho em grupo. Manteve o tempo todo o resumo à sua frente, lendo para a turma todas as informações que havia escrito. Ao término da apresentação do grupo o meu comentário principal como professora da turma foi exatamente em relação à tendência, não só de Juliana, mas também do restante do grupo de ler o que escreveram, sem conseguir desgrudar os olhos do papel. Ou por falta de memorização ou por nervosismo e timidez esta é a tendência da maioria das crianças ao lhe serem solicitadas apresentações de trabalhos para a turma. A resposta que estas crianças me dão é sempre a mesma: “Professora, eu não consigo!”

 

        Mas esta não é uma tendência só das crianças e adolescentes em sala de aula. Nós adultos fazemos a mesma coisa o tempo todo em nossa rotina de tarefas triviais. Sempre repetindo comportamentos improdutivos e tolhedores, estamos nos impedindo de fazer uma determinada tarefa de um jeito cada vez melhor ou de um jeito apenas diferente, só para provarmos para nós mesmos que não conseguimos mudar porque achamos que “assim é melhor, “ porque este é o meu jeito”, “não sei fazer diferente”, “se você quiser que se adapte ao meu estilo”. Segundo Dawna Markova (2000), é o cérebro linear, sintonizado pelas ondas Beta, que adora estabilidade e a repetição de padrões estabelecidos, nos deixando acostumados àquilo que reconhecemos como definitivo para a nossa vida e tomamos como  imutável só porque foi arranjado assim quando o executamos pela primeira vez. São nossas “experiências de referência” ditando nossos comportamentos pela vida afora:  o registro no cérebro/sistema nervoso  da primeira vez que realizamos uma determinada tarefa, experimentando pela primeira vez um determinado comportamento.

 

        Com isso empobrecemos nossa habilidade em aprender a fazer as coisas antigas de um jeito novo. Por isso não conseguimos mudar o trajeto de volta pra casa quando um amigo de carona nos sugere “ir pelo outro lado”.

 

        Segundo a mestra Susan Leibig, isto é uma maneira de levarmos a vida nos nivelando sempre por baixo, insistindo na maioria das vezes em manter um comportamento que não promove o exercício de novas sinapses, deixando nosso cérebro “empalhado”, ou, como ela mesma diz “entupido”, com um uma programação empobrecida, trazendo uma qualidade de vida inferior àquela que teríamos quando nos permitimos o exercício da “plasticidade sináptica”, nos dando  chance de deixar o cérebro realizar aquilo que é  próprio de sua natureza: trabalhar trazendo a manifestação de nossos  maiores talentos, aceitando os desafios de roteiros novos que nos empurrem montanha acima.

 

        Como professora-neuroeducadora essas questões me afetam diretamente. Se uma pessoa adulta não se interessa em deixar seu cérebro funcionar a todo vapor é problema dela, realmente. Mas quando essa é a conduta aceita veladamente por todo um sistema educacional, isto é problema de todos nós.  Quando nós professores deixamos de exigir em sala de aula um mínimo de disciplina e bom comportamento, com alunos que estejam focando sua primeira atenção nos conteúdos e atividades propostos em sala de aula, estamos contribuindo para que essas crianças nunca consigam exercer o sacrifício (ou sacro-ofício!!!) que lhes permite criar as sinapses do foco de atenção nos propósitos pedagógicos, do comprometimento em realizar o que lhes é solicitado, dos comportamentos que os levem à sua boa formação como  cidadãos responsáveis e éticos.

 

         Parece-me que tudo que antigamente era exigido das crianças na escola, hoje em dia virou sacrifício! Os recursos motivacionais dedicados a quase 90% do tempo de aula já não são suficientes para manter a atenção onde ela deveria estar. O propósito em sala de aula não é aprender só porque é divertido e engraçado e sim aprender porque é dever do aluno administrar seu aprendizado. Este comprometimento é algo que está ficando cada vez mais difícil de se cobrar do aluno, pois o “fazer esforço, para ficar em silêncio e prestar atenção aos professores” tem se tornado um subproduto e não  o foco principal do processo pedagógico. O excesso de alunos em sala de aula é um dos fatores que mais tem influenciado para piorar este quadro, pois tem dificultado o gerenciamento da disciplina e contribuído para que tudo permaneça como está. Se perguntarmos às crianças por que elas não conseguem parar de falar e prestar atenção às aulas, elas com certeza dirão: Professora, eu não consigo”!

 

         Quando os pais deixam de exigir de seus filhos atribuições que lhes tragam os brios característicos daqueles que cumprem seus deveres e realizam “sacrifícios” na obediência aos mais velhos, tornam-se adeptos do lema dos que irresponsavelmente pensam “ é a vida que ensina”, sem antes esgotarem sua própria capacidade máxima de “CONSEGUIR” exercerem suas funções de pais. É a família muitas vezes quem nivela por baixo o grau de exigência para com os filhos, afrouxando o cerco nos momentos em que ele é mais necessário para a formação moral, muitas vezes compactuando com eles, por exemplo, um sistema de premiação para que cumpram aquilo que no mínimo eles teriam obrigação de fazer. O mais grave de tudo isto é que os pais sem perceberem deixam de treinar seus filhos para lidarem com as frustrações da vida, impedindo-os de se tornarem fortes para enfrentarem situações difíceis e levando-os a um possível acovardamento diante de tarefas desafiadoras. Assim as crianças acabam fugindo da raia e procurando o caminho mais fácil que é dizer: “eu não consigo”.  Sem que percebam estarão desenvolvendo o que Susan Leibig conceitua como preguiça moral, que vai se instalando à medida que a pessoa opta por deixar de lado o que é difícil e dá trabalho, para se acomodar em acreditar que não consegue fazer determinadas tarefas, já que é mais fácil e exige muito menos esforço.

          Assim, a menos que rompa por vontade e por propósito com seus hábitos menos virtuosos, a humanidade continuará perpetuando uma geração de indivíduos adeptos à lei do menor esforço, que sempre dizem: “EU NÃO CONSIGO”, antes mesmo de tentarem conseguir.

“Pulando Corda” por Cândida Soares

7 de Outubro, 2008

O que pode dar certo em sala de aula é conseguir com que as crianças realizem o que nenhum professor pode fazer por elas: APRENDER! Para se tornarem verdadeiros alunos, não basta às crianças cruzarem o portão de entrada da escola. (por Cândida Soares)

Sou neuroeducadora e professora de Educação Física do ensino fundamental nas primeiras séries e de Língua Portuguesa nas séries mais avançadas. Uma das atividades físicas que costumo aplicar para as crianças é o “pular corda”. Esta brincadeira simples e tradicional, entre tantas outras, ajuda as crianças a desenvolverem sua coordenação.

Sendo eu mesma quem gira a corda, auxiliada por outra criança, posso observá-las uma a uma. Intuitivamente os alunos passam por várias etapas e uma delas é evitar pisar na corda, olhando-a subir e descer, até que toque o chão e se possa pular sobre ela. Vencida esta fase, surge como primeiro recurso de coordenação uma sucessão de grandes saltos consecutivos que exigem um certo esforço. Apesar do sentimento de êxito que vejo estampado no rosto das crianças, este modo de pular as faz desistir muito rápido e seu interesse em participar acaba sendo vencido pelo cansaço. Assim que as crianças passam a executar um pequeno salto intermediário entre dois saltos grandes, elas conseguem pular corda durante mais tempo. É como se fossem aos poucos depurando sua coordenação até chegarem ao ponto ideal. Pronto! Atingiram o objetivo! Já sabem pular corda! Contudo não é só isso o que percebo.

Como professora-neuroeducadora de Educação Física, tenho me surpreendido como sendo testemunha ocular dos momentos exatos em que as crianças, bem à minha frente, estruturam as “sinapses do pular corda”. Vejo no rosto delas a satisfação em ter conseguido realizar o movimento “correto”, o que lhes permite pular durante mais tempo, já que a coordenação atingida faz com que exerçam menor esforço, permitindo-lhes maior tempo de fruição na atividade aprendida.

Este movimento que chamei de “correto”, para mim, quer dizer: o pular corda trazendo um entusiasmo contagiante e ao mesmo tempo uma sensação de vitória pela constatação de uma conquista atingida. Vejo nos olhinhos de minhas crianças o brilho do prazer e da alegria em aprender uma coisa nova.

Como professora-neuroeducadora de Língua Portuguesa, em sala de aula, tenho sido uma caçadora incansável de “olhinhos que brilham” ao se criarem as sinapses da aprendizagem, traduzindo-se em boa ortografia, na compreensão e produção de textos, no enriquecimento de sua leitura de mundo. Tenho constatado em anos de prática de magistério, que nós, professores, fomos, com o tempo, perdendo o nosso brilho nos olhos, ao verificar que o que temos ensinado nas escolas não vem trazendo alegria, encantamento e o sentimento de conquista e de meta atingida. Parece-me que o erro pode não estar em nós. O que está faltando nas crianças de hoje é exatamente o prazer em aprender, a satisfação em criar as sinapses que estruturam a cognição, compondo o acervo do conhecimento.

Acredito que a Neuroeducação seja o caminho mais curto para recuperarmos em nossas crianças, seja em casa ou na escola, a satisfação em aprender, o prazer em tornarem-se autônomas e autodidatas para administrarem os ganhos de aprendizagem adquiridos e a têmpera necessária para que persistam naquilo que ninguém pode fazer por elas: APRENDER!

Criar motivação pode ser um ótimo recurso para facilitar a aprendizagem, contudo esta motivação vai “até à página dois”. Daí para frente, o que faz a diferença no aluno que quer aprender é o seu foco de atenção, é a sua crença positiva em sua capacidade, é sua auto-estima e autoconfiança, é o seu respeito e consideração pelos seus educadores, é o seu comprometimento, é, sobretudo, a VONTADE e a PAIXÃO em se tornarem pessoas empreendedoras e capazes, relacionando-se com amiguinhos torcedores e integrantes desse mesmo time.

Sonho um dia ainda poder ver meus alunos em sala de aula “PULANDO CORDA”! Sonho também ver estampado nos rostos de meus colegas educadores o gosto do dever cumprido, o orgulho e a dignidade em persistirem com sucesso na sua importante missão.

E você? O que está esperando para entrar no time dos “CAÇADORES DE OLHINHOS QUE BRILHAM”?